quinta-feira, agosto 19, 2004

Post-Novela-Policial-de-Antigamente II

Estava cansado daquilo. Mais uma morte, mais uma história. Andava se sentindo muito incomodado com o seu trabalho. A cada novo caso, mais vontade ele tinha de fazer outra coisa. O que lhe perturbava não era o tom funesto, ou o ar denso dos ambientes de morte que era obrigado a freqüentar. Nem mesmo, as aberrações que se deparava com freqüência, como corpos mutilados, ou em estado de decomposição o incomodava. O que lhe afetava mortalmente era o tratamento espetaculoso que era obrigado a dar a esses acontecimentos. Enquanto repórter policial, era sempre compelido a procurar o ângulo certo – nas fotos e no texto – para que mais jornal pudesse ser vendido. Esse era o seu trabalho, levar a público a tragédia privada. Usar as tintas certas para pintar aqueles quadros tristes.

Para ele, era um absurdo, que em pleno 1962, a imprensa ainda se comportasse dessa maneira. A manipulação da notícia com fins comerciais era algo bastante incômodo para ele e especificamente na sua área de atuação, era algo bastante comum. O fascínio das pessoas frente à morte era algo que o chocava. No fundo, ele não sabia o que era mais mórbido: a imensa massa de leitores que compravam jornal para ler este tipo de notícia, ou quem as difundia.


Chegando à rua, não teve dificuldades em localizar a casa. A quantidade de viaturas, policiais e curiosos em frente aquele vistoso sobrado não deixava dúvidas: esta noite, ali seria o seu escritório.

Não demorou para que o Capitão Ernesto Sanches, homem corpulento de quase dois metros de altura, batesse nas suas costas:

_ Rico! Você já chegou? Como é que vocês conseguem fazer isso? Daqui a pouco, a imprensa vai chegar antes da polícia... Por que vocês também não aproveitam, e levam o que sobrou daquela mulher, para o IML?
_ Boa noite prá você também, Ernesto... Mas que diabo, será que não existe mais um mínimo de cordialidade nessa cidade?
_ Sem cinismo, Rico. Tem um amigo meu que diz...
_ “Que o cinismo é pior que a arrogância.” Eu sei, Ernesto, eu sei... Mas o que aconteceu por aqui?
_ Aparentemente não tem mistério. O sujeito, dono de uma metalúrgica, chegou mais cedo em casa e flagrou a esposa com outro. Deus cinco tiros e várias facadas.
_ E o amante?
_ Fugiu. Ainda não sabemos nada sobre ele.
_ Você disse que ele deu cinco tiros?
_ E o IML vai dizer quantas facadas, mas foram pelo menos umas dez.
_ Estranho... cinco tiros... A arma não tem seis?
_ Mas você acha que o sujeito nessa situação vai ficar contando os tiros?
_ Exatamente, não vai. Ele atira até acabarem as balas... Por que ele deixou uma?
_ Ah, lá vem você de novo inventando histórias...
_ Esse é o meu trabalho.
_ E o meu é organizar esse furdúncio. E você, não encoste um dedo em nada, tá entendendo? Eu quero você invisível por aqui, estou sendo claro?
_ Claro, chefe. Como sempre, você nem está falando comigo.
_ E, Rico:
_ O que?
_ Vê se faz essa barba, pelo amor de Deus.

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segunda-feira, agosto 16, 2004

Post-Novela-Policial-de-Antigamente

Ele levantou da cama às seis e meia da tarde. Sonolento, corpo doído, gosto de maçaneta na boca. Olhou sua cara amassada no espelho. Pensou em fazer a barba, mas não fez. Pegou uma camisa amarrotada em cima de uma cadeira e a vestiu. Depois, passou alguns minutos procurando seu blazer preto de lã, um tanto surrado, que estava caído atrás do sofá. Olhou o retrato de Dóris ao lado do telefone. Ela sorria para ele. Bateu a porta e chamou o elevador.

Rapidamente ele já estava andando pelas ruas do centro de São Paulo. O vento gelado que entrava pelas suas narinas fez com que ele despertasse completamente, deixando seu raciocínio aguçado novamente. Antes de entrar no jornal onde trabalhava, resolveu tomar um café.
O dono logo o reconheceu:

_O de sempre, Magro?
_O de sempre.
_Sai um “canela” com limão, aqui pro Magro! – Gritou com voz de barítono, o homem do caixa para a atendente que tirava os cafés.

Ele nunca disse, mas era imensamente grato ao dono daquele café. Aquela sensação de ser reconhecido no meio da multidão anônima de São Paulo trazia a ele um conforto muito grande. Sem falar que o café era realmente bom.

Quando ele entrou no jornal, seu chefe, o editor da página policial foi logo dizendo:

_Se prepara que hoje a noite vai ser daquelas. Parece que um cara cheio da grana, no Brooklin, matou a esposa. Vai prá lá agora.
E completou:
_Você está com uma cara horrível, hein? Podia pelo menos fazer a barba, né?
_ Boa noite, prá você também, chefe.

Pegou a maleta e saiu.

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sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Post-Novela-Policial-de-Antigamente VIII

Rico foi voando para o Instituto Médico Legal, onde o corpo do ex-motorista Carlito estava sendo submetido à autópsia.

Aquele ambiente gélido, cheirando formol e morte já era conhecido de Rico, que ali estivera muitas outras vezes. Sem dúvida, não era agradável, mas já estava habituado. Claro que não a ponto de comer alguma coisa ali dentro, como faziam seus conhecidos que trabalhavam lá, mas ele até que suportava bem.

Assim que Rico entrou, foi saudado por um homem franzino, de fala mansa, chamado Otávio.
_ Tudo bem Rico? Veio saber do motorista?
_ Isso mesmo. Você já sabe como ele morreu?
_ Comendo um sanduíche de rosbife com queijo e tomate.
_ Quer dizer que ele morreu comendo um Bauru?
_ Um o quê?
_ Deixa prá lá...
_ Quis dizer que esta foi sua última refeição. Ainda não dá para saber com certeza, mas ele pode ter sido envenenado. Estamos aguardando o resultado de mais alguns exames para ter uma resposta mais confiável.
_ E quanto tempo isso leva?
_ Alguns dias... Talvez quatro ou cinco.
_ Mas, informalmente, qual a sua opinião? Você acha que ele foi assassinado?
_ Olha, tem boas chances... O coração do sujeito ficou num estado lastimável... Um ataque-cardíaco comum não costuma fazer isso.
_ Ok, obrigado, por enquanto.
_ Você é de casa, Rico.
Esta última frase soou um pouco desconfortável para o repórter, mas ele nada disse e saiu.
“Ser de casa em um necrotério, não era exatamente meu modelo de sucesso na vida.”

“CASO DO BROOKLIN SE COMPLICA, MOTORISTA DA FAMÍLIA É ASSASSINADO.”

_Mas chefe, eu disse que era uma possibilidade, não um fato consumado. - argumentava o repórter.
_ O fato, Rico, é que já há alguns dias não tínhamos nada sobre o caso, as coisas estavam esfriando. E as vendas também.
_ Mas assim eu fico mal com as minhas fontes. Prejudica trabalhos futuros.
_ O futuro, no futuro a gente resolve. O jornal tem contas para pagar hoje.
Rico pensou em argumentar sobre onde ficaria a ética nessa história toda, mas achou que talvez não fosse o momento.

_ Rico, telefone prá você! - berrou o jornalista da mesa ao lado.
O repórter atendeu.
_ Rico falando.
_ Aqui é Roseli, nós conversamos uns dias atrás.
Pelo barulho, Rico concluiu que a pessoa falava de um telefone público, mas não sabia de quem se tratava.
_ Roseli...
_ Eu sou a secretária do Dr. Cláudio e do Sr. Gouveia.
_ Ah, claro. Como vai? Em que posso ajudá-la?
_ Olha, tem algumas coisas que eu gostaria de te falar, mas eu tenho um certo receio...
_ Não se preocupe, ninguém precisa ficar sabendo, posso te garantir sigilo absoluto. Você tem a minha palavra.
_ Bom, se você me garante...
_ Pode ficar tranqüila. Quando você gostaria de conversar?
_ Prá dizer a verdade, prá mim seria melhor no sábado.
_ Não tem problema, o dia que for mais adequado para você.
_ Então, tá. Pode ser umas três horas?
_ Sábado às três, ok. Que tal conversarmos no Parque da Luz? Os lugares movimentados costumam ser os mais discretos.
_ Está bem.
_ Você sabe onde fica aquela pontezinha sobre o lago?
_ Sei, sim.
_ Então nos encontramos lá. Tchau.

Rico teria que aguardar um pouco mais para ter novas informações sobre o caso.

_ Rico, você tem televisão? - Perguntou, do nada, seu editor.
_ Claro que não, chefe. A menos que você me dê um aumento, o que seria bastante justo...
O editor fingiu que não ouviu essa última parte e respondeu:
_ Pois tem uma pesquisa aqui dizendo que no máximo em duas décadas ela será acessível à quase toda a população. O que você acha?
_ Acho que é esse o tempo que vou ter que esperar por um aumento...
Como o chefe ignorou novamente, Rico concluiu:
_ Mas é possível. Com o passar do tempo, as novidades vão barateando. Veja os automóveis, por exemplo. Quem diria, há alguns anos, que em 1962 teríamos tantos deles nas ruas?
_ Nessa pesquisa está dizendo que até o ano 2000, os carros estarão é voando sobre as ruas...
_ Voando? Bom, talvez resolva o problema do trânsito no fim do dia.
_ E os bondes? Acho que no futuro deverão fazer bondes bem melhores, hein?

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quinta-feira, dezembro 30, 2004

Post-Novela-Policial-de-Antigamente VII

Rico caminhava desviando das poças de chuva. O caso se complicava a cada momento. Aquilo que no começo parecia ser um simples caso passional, na verdade, não tinha nada de simples... E agora, entra em cena o sócio do principal suspeito. Seria ele o amante de Dona Veridiana?

O editor de Rico havia pedido prioridade total no caso. Havia, inclusive, dispensado o repórter de ir até o jornal. Rico pensava no próximo passo. Nesse horário, não conseguiria nenhuma informação sobre o sócio na empresa. Resolveu ligar para seu conhecido na polícia o Capitão Ernesto Sanches.

_ Oi, Ernesto, como vai?
_ Rico, pode esquecer, que eu não posso te revelar nada sobre o caso do Brooklin.
_ Também vou bem, Ernesto, obrigado. – disse Rico com ironia.
_ Não venha com gracinhas, Rico. Sei muito bem porque você ligou. E não foi para saber da minha saúde.
_ Mas um pouco de cordialidade também não custa nada, né? Que coisa... Bom, mas e o caso do Brooklin, como anda?
_ Mas eu acabei de te dizer que não posso falar sobre isso. Informações divulgadas pela imprensa atrapalham muito nosso trabalho.
_ Mas você sabe que eu não publico nada sem você saber.
_ Eu sei, Rico. E por você ter tido um comportamento decente comigo esses anos todos, é que permito que você saiba um pouco mais do que seus outros colegas, que por falar nisso, ô, gentinha filha da... Ah... sem ofensa, Rico.
_ Não, tudo bem, gostaria de dizer que você está errado... Mas, e sobre o caso? Alguma pista nova?
_ Olha, com certeza o caso não é tão simples como pensávamos no início.
_ Sério? Não, brinca. Disse Rico com sarcasmo.
_ É praticamente certo que o amante de Dona Veridiana seja um jovem ator chamado Paulo. Posso lhe dizer isso porque ele já foi intimado a depor. Mas não vá me publicar nada a respeito antes disso, estamos entendidos?
_Claro, Ernesto, obrigado. – E desligou rapidamente o telefone. “Um jovem ator?” A cada momento o caso ficava mais esquisito.

No dia seguinte, Rico foi logo cedo até a empresa de Dr. Cláudio para ver se conseguia conversar com o sócio ou algum funcionário disposto a falar. Explicou para a secretária da diretoria da empresa que estava apenas recolhendo algumas informações superficiais para uma matéria que estava escrevendo sobre o caso. Procurou conversar de modo bastante informal com a secretária, inclusive, tomando apenas notas mentais sobre o que ela dizia.

_ E você já conhecia o Dr. Cláudio há muito tempo? – perguntou Rico.
_ Há vários anos. Comecei trabalhando lá na fábrica, ainda menina. Só depois vim para o escritório, há oito anos.
_ Deve ter sido um choque para você, né?
_ Nem me fale, é difícil de acreditar. O Dr. Cláudio, homem tão bom... nunca imaginei que pudesse ser capaz de uma coisa dessas...
_ Não é incomum. – disse Rico – Muitas vezes, assassinos terríveis são pessoas que aparentam ser totalmente inofensivas. Mas a polícia está investigando... quem sabe, não aparece alguma coisa nova?
_ É, quem sabe...
_ Então, agora você está secretariando apenas o Sr. Gouveia?
_ Isso mesmo. – respondeu a moça um tanto incomodada.
_ E o relacionamento dele com Dr. Cláudio era bom?
_ Olha, o que eu posso dizer é que o Dr. Cláudio confiava nele.
_ E porque você afirma isso? - Perguntou o repórter.
_ Por que o Dr. Cláudio...

A secretária levou um baita susto quando o Sr. Gouveia, de repente, abriu a porta de seu gabinete. Alguns segundos de constrangimento se passaram até que Rico disse:

_ Sr. Gouveia, certo? Estava justamente tentando convencer sua secretária a me deixar falar uns dois minutinhos com o senhor. Mas ela estava irredutível... – disse Rico com bom humor.
_ De que se trata? - perguntou secamente o homem.
_ Eu trabalho para o Correio da Manhã e estou escrevendo uma matéria sobre o caso do Brooklin.
_ Tudo que tinha a dizer, já disse a polícia, se quiser, pergunte a eles.
_ Mas só levaria dois minutos e...
_ O senhor tem problemas de audição? Já disse que o que tinha a dizer já disse à polícia. Não tenho tempo para isso. Por favor, retire-se da minha empresa.

Rico não teve alternativa. Deu meia-volta e saiu. O homem realmente não gostava da imprensa. O repórter já havia tido várias experiências desse tipo, mas ainda assim, ficou um pouco cismado com a rispidez do homem.

Rico foi até um telefone público. Ele não acreditava nos seus ouvidos, enquanto o editor berrava do outro lado:

_ Rico, aquele motorista do Dr. Cláudio, o Carlito, está morto. Precisamos descobrir se pode ter alguma coisa com o caso do Brooklin.

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quarta-feira, novembro 03, 2004

Post-Novela-Policial-de-Antigamente VI

Rico consultou o relógio. Eram quase cinco horas. Faltava cerca de uma hora e meia para o encontro com o motorista Carlito. Resolveu dar uma volta. Andar sempre fazia com que sua cabeça funcionasse melhor. Suspeitava que algum músculo de suas pernas estava diretamente ligado ao cérebro. Saiu de seu prédio na Rua 24 de Maio, no centro de São Paulo e foi caminhando em direção a Praça da República. A temperatura havia caído e uma fina garoa começava a borrifar as ruas. Rico, de chapéu, inclinava a cabeça para baixo, tentando se proteger enquanto andava. Pensou em Dóris e sentiu uma dor funda no peito. “Ela adorava... Passava horas na janela do nosso apartamento, observando a água cair do céu sobre os prédios, sobre as pessoas, as ruas...” Como de costume nos últimos meses, sentiu-se só.

_ Devia ter ficado em casa... – pensou.

A chuva apertou e ele entrou no primeiro lugar com teto que viu. Era uma construção nova, o letreiro dizia: “Shopping Center Grandes Galerias”. Já havia ouvido falar que um empresário chamado Alfredo Matias havia visitado os Estados Unidos e trazido de lá o conceito de “shopping center”.

_ Shopping Center? Será que isso tem futuro? – pensou com seus botões.

Distraiu-se com as lojas. Não pensou sobre o assassinato, ou melhor, sobre o caso do “Monstro do Brooklin” que era como a imprensa marrom estava se referindo. O tempo correu ligeiro e ele já estava quase atrasado para o encontro. Por sorte, não era muito longe dali. O motorista havia escolhido uma lanchonete dentro de uma outra galeria do centro de São Paulo. O lugar chamava-se “Tarikano`s Lanches”. “Tarikano? Que nome para uma lanchonete...”.

Entrou no esfumaçado lugar e procurou alguém com cara de Carlito. “Não, esse não... também não... não... opa! Tem um potencial...”

_ Com licença, seu nome é Carlito?
_ Não. Não é. – disse o homem em alto e bom som.
_ Me desculpe, sim? – disse Rico, meio envergonhado pelo fora.

Rico sentou-se numa mesinha de canto e esperou um pouco para decidir o que fazer. Não precisou esperar muito. O homem que havia dito que não se chamava Carlito, passou por ele e deixou um pedaço de guardanapo dobrado onde estava escrito: “Vá para o Ponto Chic, no Largo Paissandu. Seja mais discreto, C.”

Rico teve vontade de rir. “Esse Carlito deve estar indo muito ao cinema...” pensou.

Rumou sem demora para o novo restaurante. Entrou, avistou o motorista e foi sentar-se com ele. Rico não disse nada. O outro olhou para os lados e disse:

_ Você precisa ser mais discreto... Quer que todo mundo saiba do nosso encontro?
_ Ok, vou tomar mais cuidado. – disse o repórter cinicamente.
_ Você vai comer? - Perguntou Carlito.
_ Como?
_ Eu perguntei se você vai comer, porque eu vou.
_ Não estou com fome.
_ De qualquer maneira, peça alguma coisa para não levantar suspeita.
Rico pensou que era a segunda vez durante esse caso que comeria alguma coisa sem estar com fome.

_ Está bem. O que você recomenda?
_ Tem um sanduíche aqui chamado Bauru que é muito bom.
_ Está bem, tanto faz. Afinal o que você tem a dizer sobre o caso? É verdade que foi você o primeiro a chegar na cena do crime?
_ Isso mesmo. Quando cheguei, o Dr. Cláudio estava lá... olhando para o vazio, com a faca na mão. O revólver estava caído no tapete. Nunca vou me esquecer da expressão daquele olhar... Acho que endoidou.
_ Tenho a informação de andava um pouco perturbado nas últimas semanas. Você confirma?
_ Não sei. O Dr. Cláudio sempre foi meio fechado. Cordial, bom patrão, mas nunca foi de falar muito.
_ Então você não notou nada? – perguntou o repórter.
_ Olha, não sei e não me interessa. O que eu sei é o que eu vi. Ou melhor, quem eu vi saindo da casa do Dr. Cláudio, minutos antes de ver aquela tragédia.
_ Quem você viu?
_ Primeiro quero saber quanto seu jornal está disposto a investir nessa informação.
_ Estou autorizado a pagar cem mil cruzeiros.
_ Ninharia... isso não chega nem a dez salários mínimos... Vou procurar outro jornal...
_ Ok, ok. Nossa última proposta é Cr$ 150.000.
_ Preciso pensar...
_ E por que você não contou isso para a polícia?
_ De graça, doutor? Agora eu estou sem emprego, preciso pensar na família. Porque ninguém quer saber do Carlito aqui, não senhor...

Rico argumentou que não iria além daquela quantia, porque a informação, em si não era garantia de nada.
A contragosto e alegando estar fazendo um favor, Carlito aceitou. Perguntou como e quando seria o pagamento. Tudo acertado, Rico quis saber:
_ E então, quem você viu naquela tarde?
_ Quem eu vi? Vi o Seu Gouveia, sócio do Dr. Cláudio, na empresa. Ele saiu apressado, se esquivando, olhando para os lados... Com certeza, estava muito estranho...
_ De fato, muito estranho...
_ O senhor gostou?
_ É uma informação interessante...
_ Não, não. Estou falando do Bauru, disse que não estava com fome e comeu tudo...
_ Ah, sim... Bom, muito bom.

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sexta-feira, setembro 17, 2004

Post-Novela-Policial-de-Antigamente V

Na noite do crime, depois de ter falado com o advogado do suspeito, Rico foi à caça de mais informações. E foi procurar onde elas costumavam ser mais esclarecedoras... Nos bastidores.

_ A senhora trabalha há quanto tempo na família? – Perguntou o repórter.
_ Faz doze anos que praticamente não saio desta cozinha – Respondeu aquela senhora de aparência cansada e acolhedora, num misto de orgulho e resignação.
_ E o seu patrão vinha se alimentando bem nas últimas semanas?
_ Que nada, coitado. Eu bem que me esforçava em fazer os pratos preferidos dele, mas ele quase nem tocava... – Lamuriava-se a cozinheira – Ontem à noite eu fiz pato com laranja, que de longe é seu prato preferido e ele nem mexeu na comida... Eu estava muito preocupada, estava achando que ele não gostava mais dos meus pratos, sabe? E se ele não gostasse mais da minha comida, eu não teria mais razão de ser...
_ Compreendo... Mas a senhora sabe o que ele tinha? Por que andava acabrunhado?
_ Olha, parece que era algum problema lá na firma, sabe? Parece que as coisas não iam muito bem por lá... Menos pior, né? Já pensou se o problema fosse a minha comida?
_ Imagine... tenho certeza que a senhora cozinha muito bem.
_ Modéstia à parte, cozinho bem mesmo. Inclusive sobrou um pouco de bolo de aipim aqui no forno. O senhor não está servido? Está me parecendo um pouco pálido também.
_ Não, obrigado. Não se preocupe.
_ Não, eu faço questão que o senhor prove meu bolo.- Disse a cozinheira, puxando uma cadeira para Rico, ao mesmo tempo em que servia um generoso pedaço sobre um pratinho.

Rico não estava com fome, mas achou de bom tom não rejeitar.

_ Está realmente uma delícia. – Disse o repórter.
_ Não falei? - Disse orgulhosa a cozinheira. E prosseguiu:
_ E agora com toda essa tragédia, acho que não vou poder continuar por aqui. O senhor não está precisando de cozinheira, não?
_ Não, infelizmente não estou. Mas terei prazer em recomendá-la.
_ É que nos dias de hoje, não está fácil arrumar emprego, sabe?
_ É, não está fácil... Mas parece que a tendência é melhorar.
_ Bom, você é moço, estudado, deve saber o que está falando. Mas já faz muito tempo que ouço que o Brasil é o país do futuro...
_ Mas e em relação à Dona Veridiana, você percebeu alguma alteração de comportamento nos últimos dias? – Disse o repórter tentando voltar ao assunto.
_ A Dona Veridiana, que Deus a tenha, andava tão feliz nos últimos dias... Coitada, ninguém merece uma morte como esta... mesmo botando chifres no marido.
_ Ela estava mais feliz do que de costume?
_ Ah... não sei dizer... parecia que estava mais feliz do que de costume...
_ E a senhora tem idéia de quem seja o amante? – Perguntou o repórter.
_ Não tenho, não. Olha, ela devia fazer bem feito, porque nunca ninguém desconfiou de nada.
_ Entendo... e o seu patrão é de índole violenta? Já havia batido nela, ou alguma coisa assim?
_ O Doutor Cláudio? Nada... Nunca vi homem mais doce... Difícil imaginar ele fazendo uma coisa dessas.
_ Então você acha que não foi ele?
_ Olha, moço, sei que por ciúme as pessoas fazem coisas horríveis, mas é difícil acreditar que ele tenha feito aquilo... Por outro lado, o pessoal da polícia tem certeza de que foi ele. Ele não se defende, não fala nada, parece que entrou em estado de choque, né? Mas ele estava com a faca e o revólver quando o Carlito apareceu e viu toda aquela cena horrível.
_ Carlito? Quem é Carlito?
_ É o motorista da casa. O senhor aceita mais um pedaço de bolo de aipim?

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sexta-feira, setembro 03, 2004

Post-Novela-Policial-de-Antigamente IV

_ Excelente, Rico! Genial! – dizia o editor, estapiando as costas do repórter.
E continuava:
_ Essa sua idéia de tirar uma foto meio escura, penumbrada, vai dar primeira página com certeza! Principalmente porque o caso é mais enrolado do que tínhamos pensado no início... perfeito! E você não conseguiu nenhuma declaração do assassino?
_ Não, o advogado não deixou.
_ Bom, a gente pensa em alguma coisa...

Essa última frase do editor causou um imperceptível mal estar em Rico. Ele sabia que estava implícito aí algum tipo de “criação” a ser atribuída ao outro. Detestava aquilo. Detestava essa manipulação consciente dos fatos para atingir determinado fim, que nesse caso era fazer sensacionalismo. Mas estava cansado de ver isso para os mais diversos fins... Manipulação política, favorecimento de empresas anunciantes, até manipulação religiosa já havia presenciado.Dóris, há muito, havia dito que se ele não estava feliz nessa profissão, que procurasse outra coisa. Mas que deveria procurar algo onde também pudesse utilizar seu talento para escrever e para captar imagens. Foi, inclusive, a primeira a expressar isso para Rico, que de início via no jornalismo apenas uma profissão como outra qualquer, algo para se ganhar a vida. Ah, Dóris... sentia muito sua falta. Dizem que o tempo tudo cicatriza, mas quanto mais o tempo passava, mas doía sua ausência.

_ Rico! Rico! Onde você está rapaz? O homem nem chegou à Lua ainda, se é que vai chegar, mas parece que você quer ser o primeiro, né? Aposto que não ouviu nenhuma
palavra do que eu disse.
_ Claro que ouvi chefe. Só não entendi essa última frase.
_ Eu disse que o motorista da família telefonou para cá dizendo que tem informações privilegiadas sobre o caso. Evidente que ele quer um caminhão de cruzeiros pela exclusividade, mas se o que ele tem para dizer for quente mesmo, pode valer a pena. Ele quer se encontrar em um local discreto para conversar.
_ Mas você não quer que eu vá, né? - Perguntou Rico, já sabendo a resposta.
_ É claro que quero.
_ Ah, não... mande outra pessoa... o Mário por exemplo.
_ O Mário não está disponível e além do mais a matéria é sua. Aqui está o endereço e o horário que ele marcou. – disse, entregando ao repórter pequeno pedaço de papel escrito a lápis e dobrado ao meio. - Se vira. Você sabe a alçada para negociar, se ele quiser mais, me liga e a gente analisa conforme as informações que ele tiver.

Agora sim, era o que faltava... a outra faceta que ele mais abominava... negociar com a fonte.

Rico consultou o relógio, eram sete e vinte da manhã. O encontro com o motorista se daria somente no final do dia. Estava exausto. Resolveu ir para casa descansar um pouco. Tomou banho, comeu alguma coisa e se deitou. Apesar do cansaço, não conseguia dormir. Ficava montando as peças do quebra-cabeça na sua mente, pensando em todas as outras informações colhidas no local do crime e que não havia passado ao seu editor.

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sexta-feira, agosto 27, 2004

Post-Novela-Policial-de-Antigamente III

Cinco tiros e muitas facadas... Aquele marido traído deveria estar tomado de um ódio muito grande, para tamanha explosão de violência. Amuado a um canto, rosto abatido, camisa manchada de sangue... cabisbaixo, pôs as mãos espalmadas sobre o rosto e chorou.
Rico deveria tirar algumas fotos, fazer perguntas, conseguir alguma declaração. Mesmo sabendo que tinha pela frente alguém que havia matado brutalmente a mulher, se compadeceu daquele que agora parecia tão frágil. “O ser humano é muito estranho”, pensou. Regulou sua máquina, para aproveitar toda a luz do local e não utilizar o flash.

“Droga, vai ficar escura...”. Tirou algumas fotos sem que o homem percebesse. Aproximou-se. No momento em que abria a boca, foi barrado por um sujeito que, dedo em riste, foi logo dizendo:

_ Meu cliente está muito perturbado e não dará nenhuma entrevista neste momento.

O advogado do industrial, homem magrelo e calvo, óculos fundo de garrafa e bigodinho, foi afastando Rico com as mãos sem a menor cerimônia.

_ Você é o advogado dele? Perguntou Rico, já sabendo a resposta.
_ Exato. Dr. Cláudio de Cicca, com dois “cês” – disse o homem para ter certeza que seu nome seria grafado corretamente pelo jornal.
_ Ok. Seu cliente chegou a ver o amante? Sabe de quem se trata?
_ Essa informação não pode ser revelada no momento para não atrapalhar as investigações policiais.
_ Investigações? Mas o caso já não está esclarecido?
_ Esclarecido? Para mim está. Meu cliente é inocente.

Rico sabia que outras mortes como aquela, ou piores, deveriam ter acontecido naquele período. A diferença é que elas aconteciam na periferia, onde esparçamente eram investigadas pela polícia, muito menos publicadas. “Temos que mostrar o que o público quer ler” dizia seu editor.

Percebeu imediatamente que muito jornal seria vendido nas próximas semanas às custas daquela mulher estendida no tapete da sala de jantar.


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