sexta-feira, fevereiro 20, 2004

As aventuras de Johny X - Cap IV
Gilson era de cor parda. Um ralo bigode cobria seu lábio. Semblante quase sempre fechado, tinha cara de poucos amigos. E realmente eram bem poucos, os amigos daquele sujeito que só pensava em trabalhar (muito) para poder dar um futuro melhor que o seu próprio à sua filhinha Jéssica de dois anos. Normalmente era o primeiro a chegar e o último a sair naquela firma. Não hesitava em aceitar inclusive aqueles serviços que eram solicitados perto do horário de ir embora e que atrasavam ainda mais sua volta para casa. Atrasavam o seu encontro com a pequena Jéssica.

Naquele domingo de sol, quando tocaram a campaínha da sua casa, ele não acreditou no que viu. Parado em frente ao pequeno portão de sua casa, ninguém menos que o próprio Johny.

Na quinta-feira anterior, Johny havia tomado uma decisão: iria começar a se defender um modo um pouco mais ativo. ”Dizem que a melhor defesa é o ataque... de qualquer maneira, se eu não fizer isso, vou pirar.” pensava o jovem executivo. Estava cansado de todo aquele estresse, toda aquela tensão. Continuava fazendo itinerários diferentes em horários diferentes. E continuava com os nervos a flor da pele. Nesse dia, avisou a secretária que não estava se sentindo bem e que não trabalharia pelo menos na parte da manhã.

Tomou banho e desceu até a portaria do prédio.

_Tudo bem, Dalvair? Perguntou ele
_Tudo em paz, Seu Johny. Não recebeu a revista de novo essa semana?
_Não, tá tudo certo com a revista. Tenho recebido normalmente. Eu queria te perguntar uma outra coisa: Na terça-feira, colocaram de baixo da minha porta um envelope. Você sabe quem entregou?
_Quem aqui do prédio que entregou no seu apartamento?
_Não, eu quero saber de onde veio.
_Olha, Seu Johny, é provável que tenha sido entregue na parte da tarde, para o outro porteiro, o Josenir.
_E fica algum resgistro do que chega?
_ Só no caso de sedex, ou outra correspondência registrada.
_Sei... e que horas chega o Josenir?
_Ele entra as 12 horas.
Johny olhou seu Bullova, eram 9:30h. Teria que esperar. Pelo jeito também não trabalharia na parte da tarde.

Voltou ao apartamento. Abriu seu Notebook. Em uma página em branco do Word, começou a digitar tudo o que podia se lembrar, desde aquele primeiro contato telefônico. Foi anotando tudo: o que lembrava de concreto e literal e também algumas impressões mais subjetivas: “voz agressiva”; “gírias de marginal”; “tom de ameaça”;“traição”;“morte”.
“Morte”, será que era isso que o aguardava? “Se for, não vai ser de graça”, pensou. Foi juntando tudo na cabeça quando veio o estalo:
_Lógico! Esse cara não quer me matar. Primeiro, porque quem quer fazer alguma coisa não manda recado e segundo, porque ele sempre fala que “vão me pegar”. Esse tom agressivo me confundiu, mas definitivamente “esse aí” não quer me matar. Bom, mas quem quer, então?

Johny entendia cada vez menos. E aquela manhã de quinta simplesmente voou. O porteiro da tarde já deveria ter chegado. Johny desceu sem muitas expectativas. Explicou a história toda e o porteiro disse:
_Fui eu que recebi sim. Um motoqueiro entregou e pediu para deixar no seu apartamento com urgência. Até pedi para o Geraldo da faxina colocar embaixo da sua porta.
_Mas como era esse motoqueiro? Vc lembra o nome da empresa? Perguntou Johny, quase desesperado.
_Aí fica difícil, hein Seu Johny... Esses motoboy é tudo igual... macacão preto, capacete...
_ Josenir, eu preciso muito de qualquer pista que me ajude a saber de onde veio esse motoboy. Pensa com carinho, que vc garante sua cerveja no fim de semana.
_Que é isso, Seu Johny, é sempre com satisfação que a gente procura ajudar...
_Tá bom, eu agradeço e esse lembrar de alguma me avisa urgente, ok?
_Pode deixar.

Johny mal abria a porta do seu apartamento, voltando da conversa com o porteiro, quando tocou o interfone:
_Seu Johny, lembrei de uma coisa. Como ele parou com a moto aqui em frente, deve ter sido gravado pela câmera de circuíto interno. Eu liguei para o pessoal da segurança e eles vão me mandar a fita ainda na parte da tarde.
_Valeu Josenir, não vou esquecer da cerveja.
_Que é isso, seu Johny...

Rapaz, impressionante como as pessoas ficam eficientes quando estão “motivadas”...

Com o do advento do DVD, Johny pensou em se desfazer de seu “obsoleto” vídeo cassete, hi-fi de sete cabeças. Ainda bem que não o fez. A fita que recebeu do porteiro já estava no ponto certo. Nela um motoqueiro como outros milhares na cidade de São Paulo, descia da moto, conversava alguma coisa com o porteiro e deixava um envelope. Johny assistiu algumas vezes o trecho e nada. Nada que o ajudasse a ter alguma pista sobre o motoqueiro. Lembrou de alguns filmes americanos, onde era possível aumentar e movimentar a imagem com total nitidez... Pura ficção. Já estava quase desistindo quando bem no canto da tela, notou que aparecia um pedaço do baú da moto e um pedaço de número de telefone. Na verdade, estava faltando os últimos dois números. Bom, - pensou Johny – vai dar um trabalhinho, mas com um pouco de sorte, não vou demorar muito.

Depois de muitos “Desculpe, foi engano”, Johny conseguiu o que queria:
_Fast Service Entregas, boa tarde. Disse a recepcionista do outro lado da linha.
Ele levou um susto e desligou rapidamente. Fast Service era a empresa de entregas contratada da corretora onde trabalhava. Voltou para a fita, agora com outros olhos, tentando reconhecer o motoqueiro. O ângulo não favorecia... até que: “Bingo!!”, o capacete. Com certeza, já tinha visto antes aquele adesivo de caveira no capacete. Ligou para Rose na corretora.

_Oi, Rose tudo bem?
_Tudo. Você tá melhor?
_Melhor? Ah, tô sim o brigado. Deixa eu te perguntar uma coisa: Você conhece aqueles motoqueiros que prestam serviço prá gente?
_Conhece como?
_Sabe o nome, pelo menos?
_De alguns sim.
_Conhece um que tem uma figura de caveira no capacete.
_Ah, tá... um que parece que tá sempre bravo? Acho que o nome dele é...Gilson! Isso mesmo. O cara chama Gilson.

>> continua

segunda-feira, setembro 15, 2008

As aventuras de Johny X - Cap IV

Nos documentos oficiais, a cor de Gilson estava definida como "parda". Não gostava que o chamassem de Gil, Gilsão, ou qualquer outra coisa que não fosse Gilson. "Não tá escrito Gilson, aqui no papel? Então é Gilson." Um ralo bigode cobria seu lábio, semblante quase sempre fechado, de poucos amigos. E realmente eram bem poucos, os amigos daquele sujeito que só pensava em trabalhar (muito) para poder dar um futuro melhor que o seu próprio à sua filhinha Jéssica de dois anos. Normalmente, era o primeiro a chegar e o último a sair naquela empresa de entregas onde trabalhava. Não hesitava em aceitar inclusive aqueles serviços que eram solicitados perto do horário de ir embora e que atrasavam ainda mais sua volta para casa. Atrasavam o seu reencontro com a pequena Jéssica.

Naquele domingo de sol, quando tocaram a campainha da sua casa, ele não acreditou no que viu, ou melhor, em quem viu parado em frente ao pequeno portão de sua casa.

....................

Na quinta-feira anterior, Johny havia tomado uma decisão: iria começar a se defender de um modo um pouco mais ativo. "Dizem que a melhor defesa é o ataque, então... E mesmo porque, se eu não fizer alguma coisa, vou pirar." pensava o jovem executivo. Estava cansado de todo aquele estresse, toda aquela tensão. Continuava fazendo itinerários diferentes e variando os horários. E continuava com os nervos a flor da pele. Nesse dia, avisou a secretária que não estava se sentindo bem e que não trabalharia pelo menos na parte da manhã.

Tomou banho e desceu até a portaria do prédio.

_Tudo bem, Dalvair? Perguntou ele
_Tudo em paz, Seu Johny. Não recebeu a revista de novo esta semana?
_Não, tá tudo certo com a revista. Tenho recebido normalmente. Eu queria te perguntar uma outra coisa: Na terça-feira, colocaram de baixo da minha porta um envelope. Você sabe quem entregou?
_O senhor quer saber quem aqui do prédio que entregou no seu apartamento?
_Não, eu quero saber de onde veio.
_Olha, Seu Johny, é provável que tenha sido entregue na parte da tarde, para o outro porteiro, o Josenir.
_E fica algum registro do que chega?
_ Só no caso de Sedex, ou outro tipo de carta registrada.
_Sei... e que horas chega o Josenir?
_Ele entra ao meio dia.
Johny olhou seu Bullova, eram 9:30h. Teria que esperar. Pelo jeito também não trabalharia na parte da tarde.

Voltou ao apartamento. Abriu seu Notebook. Em uma página em branco do Word, começou a digitar tudo o que podia se lembrar, desde aquele primeiro contato telefônico. Foi anotando tudo: o que lembrava de concreto e literal e também algumas impressões mais subjetivas: "voz agressiva"; "gíria de marginal"; "tom de ameaça";"traição";"morte".
"Morte", será que era isso que o aguardava? "Se for, não vai ser de graça", pensou. Foi juntando tudo na cabeça quando veio o estalo:
_Lógico! Esse cara não quer me matar. Primeiro, porque quem quer fazer alguma coisa não manda recado e segundo, porque ele sempre fala que "vão me pegar". Esse tom agressivo me confundiu, mas definitivamente "esse aí" não quer me matar. Bom, mas quem quer, então?

Ele entendia cada vez menos. E aquela manhã de quinta simplesmente voou. O porteiro da tarde já deveria ter chegado. Johny desceu sem muitas expectativas. Explicou a história toda e o porteiro disse:
_Fui eu que recebi sim. Um motoqueiro entregou e pediu para deixar no seu apartamento com urgência. Até pedi para o Geraldo da faxina colocar embaixo da sua porta.
_Mas como era esse motoqueiro? Você lembra o nome da empresa? Perguntou Johny, quase desesperado.
_Aí fica difícil, hein Seu Johny... Esses motoboy é tudo igual... macacão preto, capacete...
_ Josenir, eu preciso muito de qualquer pista que me ajude a saber de onde veio esse motoboy. Pensa com carinho, que você garante sua cerveja no fim de semana.
_Que é isso, Seu Johny, é sempre com satisfação que a gente procura ajudar...
_Tá bom, eu agradeço e esse lembrar de alguma me avisa urgente, ok?
_Pode deixar.

Johny mal abria a porta do seu apartamento, voltando da conversa com o porteiro, quando tocou o interfone:
_Seu Johny, lembrei de uma coisa. Como ele parou com a moto aqui em frente, deve ter sido gravado pela câmera de circuito interno. Eu liguei para o pessoal da segurança e eles vão mandar o CD com as imagens ainda na parte da tarde.
_Valeu Josenir, não vou esquecer da cerveja.
_Que é isso, seu Johny...

Rapaz, impressionante como as pessoas ficam eficientes quando estão "motivadas"...

Assim que recebeu o CD, já foi colocando ansiosamente no notebook. Os capítulos estavam separados por horário, começou a assistir as imagens gravadas depois das doze horas. Viu de tudo, empregadas domésticas batendo papo com os porteiros, entrega de móveis, de flores, um entre e sai de pessoas até que "bingo!", um motoboy carregando um envelope já bastante conhecido. Era um motoqueiro como outros milhares na cidade de São Paulo, descia da moto, conversava alguma coisa com o porteiro e deixava um envelope. Johny assistiu algumas vezes o trecho e nada. Nada que o ajudasse a ter alguma pista sobre o motoqueiro. Lembrou de alguns filmes que assistiu, onde o policial amplia e movimentar a imagem com total nitidez... Pura ficção, mal conseguia distinguir as imagens tal como estavam... Já estava quase desistindo quando bem no canto da tela, notou que aparecia um pedaço do baú da moto e neste, com algum esforço podia se ler alguns números telefone. Na verdade, estava faltando os últimos dois números. Bom, - pensou Johny - vai dar um trabalhinho, mas com um pouco de sorte, não vou demorar muito.

Depois de muitos "Desculpe, foi engano", Johny conseguiu o que queria:
_Fast Service Entregas, boa tarde. Disse a recepcionista do outro lado da linha.
Ele levou um susto e desligou rapidamente. Fast Service era a empresa de entregas contratada da corretora onde trabalhava. Voltou para a fita, agora com outros olhos, tentando reconhecer o motoqueiro. O ângulo não favorecia... até que: "o capacete!!. Com certeza, já tinha visto antes aquele adesivo de caveira no capacete. Ligou para Rose na corretora.

_Oi, Rose, tudo bem?
_Tudo. Você tá melhor?
_Melhor? Ah, tô sim obrigado. Deixa eu te perguntar uma coisa: Você conhece aqueles motoqueiros que prestam serviço prá gente?
_Como assim, conhece?
_Sabe o nome, pelo menos?
_De alguns sim.
_Conhece um que tem uma figura de caveira no capacete.
_Ah, tá... um que parece que tá sempre bravo? Acho que o nome dele é...Gilson! Isso mesmo. O cara chama Gilson.

>> continua

sexta-feira, março 26, 2004

As aventuras de Johny X - Cap VI
Interessante. A conversa com Gilson não trouxe todas as respostas que Johny esperava, no entanto, por algum motivo, ele se sentia um pouco mais tranqüilo, um pouco menos tenso. Talvez pelo simples fato de poder conversar com alguém... mesmo que esse alguém fosse um motoboy não lá muito simpático. Será que podia confiar no cara? Será que ele disse a verdade? Pareceu que sim, mas até aí...

-------*-------

Johny não podia acreditar no ronco daquela moto... era demais. Quando saiu da loja e sentiu os primeiros sopros de brisa no rosto, por um breve instante, se esqueceu de todos aqueles problemas. Mas foi apenas por um breve instante. Imediatamente lembrou-se do primeiro contato telefônico de Gilson. Ele sabia que estava para pegar aquela moto. E se Gilson sabia... qualquer um poderia estar sabendo. Resolveu não dar bobeira. Foi fazendo uns caminhos alternativos até voltar para casa. Quando entrou, viu a luz da secretária eletrônica piscando indicando que havia recado. Nas últimas semanas, coisas banais agora eram motivo de tensão: “Quem será?”. Ficou enrolando para pressionar o botão... desistiu. Resolveu ir tomar banho antes.

Tomou banho; jantou; deu uma olhada na correspondência; checou os e-mails; deu uma zapeada na tevê.
Se ajeitou no sofá. Respirou fundo. Olhou mais uma vez para a luzinha vermelha piscando e apertou o botão:
_Oi, João, é mamãe. Está tudo bem? Onde você tem andado? Quando puder, me ligue. Beijo.
Ele simplesmente havia esquecido de tudo e de todos naquelas últimas semanas: mãe, amigos, “amigas”...
Mas não tinha jeito, estava difícil conseguir encontrar ânimo para falar com qualquer um... Mas de qualquer maneira, deixou um recado no celular quase sempre desligado de sua mãe.

Foi deitar cedo naquela quarta-feira. Este, que há pouco tempo era o seu dia da semana sinônimo de balada, agora era sinônimo de cama (e o pior, sozinho).

Pelo menos, aproveitou o descanso. Quando acordou para ir trabalhar no dia seguinte, sentia-se bem mais disposto. Pegou seu capacete preto tipo coquinho, óculos escuros, sua pasta, a chave da Harley e desceu.

Céu azul, pouco trânsito, um solzinho tímido, porém suficiente para dar uma aquecida no coração daquele paulistano. Dessa forma, Johny chegou um pouco mais animado ao escritório naquele dia.

Um pouco antes do meio dia, o mercado não estava dos melhores. Ainda sentindo o impacto do caso Waldomiro Diniz, o Ibovespa continuava caindo e o dólar pressionando para cima. Mas Johny estava focado; foi conseguindo se desfazer dos papéis mais problemáticos de alguns clientes e minimizando os prejuízos. Estava tão concentrado que nem percebeu quando Gilson entrou para buscar alguns papéis com Rose, a secretária da corretora.

Gilson, como de costume, estava com o semblante fechado, apresentando sua habitual cara de poucos amigos...
Quando finalmente Johny percebeu que ele estava lá, Gilson simplesmente o ignorou. Mas não por muito tempo.

Esperou Gilson sair da sala e foi atrás do motoboy, alcançando-o na entrada do elevador.

_E aí, alguma novidade? Perguntou Johny.
_Cara, põe uma coisa na tua cabeça de maurício: se os caras se ligam que eu te falei alguma coisa, eu tô pego, entendeu? Então, se vira, mano. Essa parada é problema seu. Eu já fiz até demais. Vê se desembaça. – E entrou no elevador sem olhar para trás.

Johny voltou para sua mesa. Todo foco e concentração se foram. Só conseguia pensar na sua “parada” como disse Gilson. Decidiu pensar um pouco no que o Motoboy havia dito da outra vez, sobre a proximidade do “alguém” que queria pegá-lo... Começou a passar mentalmente, pessoa por pessoa, que trabalhava naquele local... Achava difícil associar qualquer um à esse tipo de coisa.

Depois do almoço a tarde ia se arrastando. Rose passa uma ligação para o Johny que, distraído, atende.

_ Alô .
_Agora a casa caiu pro meu lado – disse Gilson, sem firula.
Johny demorou um pouco para processar e finalmente perguntou:
_O que aconteceu?
_Tentaram me pegar hoje no trânsito, depois que saí daí. Uma pick-up preta quase me esmaga numa coluna de metrô.
_Mas como você sabe que foi intencional? Não pode ter sido acidente?
_Sem chance. O cara jogou o carro em cima mesmo. Na moral. Com certeza, ficaram sabendo de alguma coisa.
Gilson demonstrava uma estranha calma, tanto, que Johny ficou pensando se aquela situação não seria normal para o motoboy...
_Bom, e agora? O que a gente faz? Perguntou Johny.
_ A gente pega eles bacana. Antes que eles peguem a gente.

>>continua

quinta-feira, outubro 02, 2008

As aventuras de Johny X - Cap VI

Interessante, a conversa com Gilson não trouxe todas as respostas que Johny esperava, no entanto, ficou um pouco mais tranqüilo, menos tenso. Pelo menos agora, ele tinha uma noção do que estava acontecendo. E mais, sentiu um consolo pelo simples fato de poder conversar com alguém... mesmo que esse alguém fosse um motoboy não lá muito simpático. Será que podia confiar no cara? Será que ele disse a verdade? Ou toda a verdade? Pareceu que sim, mas até aí...

-------*-------

Johny não podia acreditar no ronco do motor daquela moto... era demais. Quando saiu da loja e sentiu os primeiros sopros de brisa no rosto, por um breve instante, se esqueceu de todos aqueles problemas. Mas foi apenas por um breve instante. Imediatamente lembrou-se do primeiro contato telefônico de Gilson. Eles sabiam que estava para pegar aquela moto. Resolveu não dar bobeira. Foi fazendo uns caminhos alternativos até voltar para casa. Quando entrou, viu a luz da secretária eletrônica piscando indicando que havia recado. Nas últimas semanas, coisas banais agora eram motivo de tensão: "Quem será?". Ficou enrolando para pressionar o botão... desistiu. Resolveu ir tomar banho antes.

Tomou banho; jantou; deu uma olhada na correspondência; checou os e-mails; deu uma zapeada na tevê.
Se ajeitou no sofá. Olhou mais uma vez para o telefone que indicava uma nova mensagem, respirou fundo e apertou o botão:
_Oi, João, é mamãe. Está tudo bem? Onde você tem andado? Quando puder, me ligue. Beijo.
Ele simplesmente havia esquecido de tudo e de todos naquelas últimas semanas: mãe, amigos, "amigas"...
Mas não tinha jeito, estava difícil conseguir encontrar ânimo para falar com qualquer um... Mas de qualquer maneira, deixou um recado no celular quase sempre desligado de sua mãe.

Foi deitar cedo naquela quarta-feira. Há pouco tempo era o seu dia da semana preferido para baladas, agora era sinônimo de cama (e o pior, sozinho).

Pelo menos, aproveitou o descanso. Quando acordou para ir trabalhar no dia seguinte, sentia-se bem mais disposto. Pegou seu capacete preto tipo coquinho, óculos escuros, sua pasta, a chave da Harley e desceu.

Céu azul, inacreditavelmente pouco trânsito, um solzinho tímido, porém suficiente para dar uma aquecida no coração daquele angustiado paulistano, fizeram com que ele chegasse um pouco mais animado ao escritório naquele dia.

Um pouco antes do meio dia, o mercado não estava dos melhores. Ainda sentindo o impacto da quebradeira dos bancos americanos, o Ibovespa continuava caindo e o dólar pressionando para cima. Mas Johny estava focado; foi conseguindo se desfazer dos papéis mais problemáticos de alguns clientes e minimizando os prejuízos. Estava tão concentrado que nem percebeu quando Gilson entrou para buscar alguns papéis com Rose, a secretária da corretora.

Gilson, como de costume, estava com o semblante fechado, apresentando sua habitual cara de poucos amigos...
Quando finalmente Johny percebeu que ele estava lá, Gilson simplesmente o ignorou. Mas não por muito tempo.

Esperou Gilson sair da sala e foi atrás do motoboy, alcançando-o na entrada do elevador.

_E aí, alguma novidade? Perguntou Johny.
_Cara, põe uma coisa na tua cabeça de maurício sem-noção: se os caras se ligam que eu te falei alguma coisa, eu tô pego, entendeu? Então, se vira, mano. Essa parada é problema seu. Eu já fiz até demais. Vê se desembaça. - E entrou no elevador sem olhar para trás.

Johny voltou para sua mesa. Todo foco e concentração se foram. Só conseguia pensar na sua "parada" como disse Gilson. Decidiu pensar um pouco no que o Motoboy havia dito da outra vez, sobre a proximidade do "alguém" que queria pegá-lo... Começou a passar mentalmente, pessoa por pessoa, que trabalhava naquele local... Achava difícil associar qualquer um à esse tipo de coisa.

A tarde se arrastou lentamente. O mercado fechou e Johny analisava alguns relatórios. Foi então que Rose passou uma ligação que ele, que, distraído, atendeu.
_ Alô .
_Agora a casa caiu pro meu lado - disse Gilson, sem firula.
Johny demorou um pouco para processar e finalmente perguntou:
_O que aconteceu?
_Tentaram me pegar hoje no trânsito, depois que saí daí. Uma pick-up preta quase me esmaga numa coluna do metrô.
_Mas como você sabe que foi intencional? Não pode ter sido acidente?
_Sem chance. O cara jogou o carro em cima mesmo na moral. Com certeza, ficaram sabendo de alguma coisa.
Gilson demonstrava uma estranha calma, tanto, que Johny ficou pensando se aquela situação seria normal para o motoboy...
_Bom, e agora? O que a gente faz? Perguntou Johny.
_ A gente pega eles, bacana. Antes que eles peguem a gente.

>>continua

quarta-feira, setembro 10, 2008

As aventuras de Johny X - Cap II

O mercado estava calmo aquele dia. Na verdade, aquela semana. O dólar oscilando pouco, com tendência de baixa; o risco Brasil caindo e o índice Bovespa em alta conferiam ao adrenalizado trabalho de Johny uma calma incomum, quase monótona para ele. Mas não demorou muito para a calmaria se transformar em tempestade.

_Johny, você atende a três? Perguntou a secretária com voz estridente.
_Rose, você sabe que eu tô operando, agora não dá, né?
_Eu sei, mas o cara disse que é importante, tava meio nervoso.
_Mas quem é afinal? - se irritava ele, segurando dois telefones e com os olhos grudados no monitor.
_Ele não quis dizer.
_Ô, meu saco.... Cadê o Buzina? Fala prá ele continuar aqui prá mim.
_Demorô, Johny - Não se fez de rogado, o estagiário de apelido Buzina, que apareceu do nada.

Johny foi até a pequena mesa redonda de reunião e fitou o aparelho KS por alguns instantes. O número três piscando... não soube o porquê, mas sentiu um pequeno frio na barriga.
_Alô - disse ele tentando demonstrar naturalidade.
_Prá quem tá perto de virar presunto, cê tá bem sem-pressa, né, playboy? Disse a voz meio abafada do outro lado da linha.
_Quem tá falando?
_É... Senhor Johny... Vai pegar sua moto de bacana amanhã, depois vai naquela academia de bacana à noite... Tá achando que tá bem na fita, né, pleiba?
_Quem tá falando? Não tô achando graça nenhuma.
_Se liga, mané, que tão querendo fazer a sua - e desligou o telefone.

Johny se sentiu um pouco zonzo. Que estava acontecendo afinal? Olhando para o vazio da mesa, tentava se acalmar e colocar as idéias em ordem. "O cara me ameaçou, disse que eu vou virar presunto, mas não pediu nada..." refletia ele desesperadamente.
_Rose, tem como saber o número do telefone que me ligou agora pouco? gritou ele para a secretária.
_Vou ver com o pessoal da telefonia e te falo. Nossa, cê tá pálido. Tudo bem?
_Claro - disse ele tentando disfarçar - Vê se consegue o número prá mim, tá?
_Tá bom.

Pela sua mente passava um turbilhão de coisas: assalto, seqüestro, morte, dúvidas, "por que eu?", tudo se agitava na sua mente. Então, lembrou de algo nada animador. Não havia comentado com ninguém sobre a Harley. Não que ele não quisesse ter falado, mas realmente não teve oportunidade. A conclusão mais óbvia era que havia alguém seguindo seus passos. E esta sensação de invasão e impotência era a coisa mais horrível que ele já havia sentido na vida.

_5555-1214 - disse Rose - Esse é o número que ligou para você. Quer dizer, não é que o número ligou para você, mas a pessoa... Cê entendeu, né?
_Não, eu não estou entendendo mais nada, Rose. Mais nada.

continua>>

terça-feira, fevereiro 03, 2004

As aventuras de Johny X - Cap II
O mercado estava calmo aquele dia. Na verdade, aquela semana. O dólar oscilando pouco, com tendência de baixa; o risco Brasil caindo e o índice Bovespa em alta conferiam ao adrenalizado trabalho de Johny uma calma incomum, quase monótona para ele. Mas não demorou muito para a calmaria se transformar em tempestade.
_Johny, você atende a três? Perguntou a secretária com voz estridente.
_Rose, você sabe que eu tô operando, agora não dá, né?
_Eu sei, mas o cara disse que é importante, tava meio nervoso.
_Mas quem é afinal? – se irritava ele, segurando dois telefones e com os olhos grudados no monitor.
_Ele não quis dizer.
_Ô, meu saco.... Cadê o Buzina? Fala prá ele continuar aqui prá mim.
_Demorô, Johny - Não se fez de rogado, o estagiário que apareceu do nada.

Jhony mudou para a pequena mesa redonda de reunião e fitou o aparelho por alguns instantes. O número três piscando... não soube porque, mas teve um pequeno frio na barriga.
_Alô – disse ele tentando demonstrar naturalidade.
_Prá quem tá perto de virar presunto, você tá bem sem-pressa, né, playboy? Disse a voz meio abafada do outro lado da linha.
_Quem tá falando?
_É... Senhor Johny... Vai pegar sua moto de bacana amanhã, depois vai naquela academia de bacana à noite... Tá bem na fita, né, pleiba?
_Quem tá falando? Não tô achando graça nenhuma.
_Se liga, mané, que tão querendo fazer a sua – e desligou o telefone.

Johny estava zonzo. Que estava acontecendo afinal? Olhando para o vazio da mesa, tentava se acalmar e por as idéias em ordem. “O cara me ameaçou, disse que eu vou virar presunto, mas não pediu nada...” refletia ele desesperadamente.
_Rose, tem como saber o número do telefone que me ligou agora pouco? gritou ele para a secretária.
_Vou ver com o pessoal da manutenção e te falo. Nossa, cê tá pálido. Tudo bem?
_Claro – disse ele tentando disfarçar – Vê se consegue o número prá mim, tá?
_Tá bom.

Pela sua mente passava um turbilhão de coisas: assalto, seqüestro, morte, dúvidas, “por que eu?”, tudo se agitava na sua mente. Então lembrou de algo nada animador. Não havia comentado com ninguém sobre a Harley. Não que ele não quisesse ter falado, mas realmente não teve oportunidade. E a conclusão mais óbvia era que havia alguém seguindo seus passos. E essa sensação de invasão e impotência era a coisa mais horrível que ele já havia sentido na vida.

_5555-1214 – disse Rose – Esse é o número que ligou para você. Quer dizer, não é que o número ligou para você, mas a pessoa... Cê entendeu, né?
_Não, eu não estou entendendo mais nada, Rose. Mais nada.

continua>>

quarta-feira, outubro 29, 2008

As aventuras de Johny X - Cap VII

"A gente pega eles? Como assim, a gente pega eles? Eu não quero pegar ninguém, não... Só quero me livrar disso tudo." - pensava Johny com seus botões.

Já fazia um mês desde o primeiro telefonema de Gilson. E neste mês, de muita tensão, a vida de Johny simplesmente virou de cabeça para baixo. O paraíso em que ele aparentemente vivia, desmoronou. Refletiu longamente sobre a possibilidade de envolver a polícia no caso e deixar profissionais que são treinados e pagos para isso (pelo menos, deveriam ser) resolvessem o problema. Acabou descartando esta opção por enquanto. Preferiu esperar um pouco mais e ver se conseguia descobrir alguma coisa. Também ficou pensando em Gilson... ainda tinha dúvidas se poderia realmente confiar nele. Alguma coisa em seu interior dizia que sim, que aquele jeito rude do motoboy, indicava também uma certa transparência e sinceridade. Mas o lado racional de Johny preferia confiar desconfiando.

Gilson suspirou. Sabia o que precisava fazer. Proteger o que tinha de mais valioso. Mais que a própria vida, o que interessava para ele, era a segurança da sua filhinha Jéssica.

_ Por que eu preciso ficar na casa da vovó? - Perguntou a pequena.
_ Porque sim.
_ Porque sim não é resposta, sabia?
_ Então, porque precisa.
_ Mas precisa por que, pai? Foi o que eu perguntei primeiro, poxa...
_ Filha, o papai jamais faria isso, se não precisasse muito. Você sabe que eu te amo, né?

Gilson não cansava de se admirar com a precocidade e inteligência da filha. Quando a mãe dela foi embora, achava que a menina sofreria muito. Mas a capacidade de adaptação das crianças é muito maior que a dos adultos. Ela nunca chorou pedindo pela mãe e raramente falava dela.

_ É só por um tempo, tá bom? Ele só não tinha idéia de quanto tempo...

Enquanto isso, no escritório, Johny pensava em quem poderia se beneficiar com sua morte... Haviam três prováveis pessoas que poderiam ocupar o lugar dele: Ricardo Andrea Luchetta, Felipe Silveira e Rodrigo Portela. Em princípio, parecia bastante improvável que qualquer uma destas pessoas pudesse ter qualquer envolvimento com uma coisa dessas. Mas ele sabia que as pessoas nunca são apenas o que aparentam. Até mesmo, ele próprio.

terça-feira, fevereiro 10, 2004

As aventuras de Johny X - Cap III
_Telefone público em Diadema?? É claro... o cara não usaria um telefone que pudesse ser localizado – lamentava Johny, cada vez mais angustiado.

Ele realmente não sabia o que fazer. Estava totalmente desnorteado. Pensou em ligar para a polícia: “Mas vou dizer o quê? Que alguém me ligou avisando que vão me matar? E eles vão poder fazer o quê? Provavelmente dizer que foi trote. O que também é possível...”
Ficou pensando em quem teria mau-gosto suficiente para fazer uma “brincadeira” dessas. Ninguém lhe ocorria. Achava que mesmo os mais sacanas do departamento, que já haviam até providenciado telegramas falados com drag queens e outros trotes, não fariam uma coisa dessas. Mesmo eles... E depois, havia uma autenticidade naquela voz, uma quase raiva, que ator nenhum conseguiria interpretar. E ainda, o telefonema aconteceu no começo da manhã e agora o dia já estava acabando, é provável que se fosse uma “pegadinha”, o autor já tivesse aparecido para tirar uma da “cara pálida” dele.

Luca, seu melhor amigo, havia viajado para a Patagônia. Pensou em conversar com a sua mãe, mas não quis preocupá-la. Pela primeira vez em muito tempo, se sentiu sozinho. Alguém estava de olho nele e ele não sabia quem e nem porque. Se é que essas coisas precisavam de motivo...

Sete e meia, oito. Oito e meia da noite e ele ainda estava no escritório. Até o pessoal da faxina já havia ido embora e ele continuava lá, enrolando, com medo de voltar prá casa. Ficou pensando no que fazer. Decidiu mudar o caminho, para despistar. Depois, cogitou passar a noite em um hotel. “Pera lá, assim também já é demais.”

Respirou fundo, tomou coragem e decidiu ir para casa mesmo. Pegou o elevador e desceu até a garagem onde estava seu carro. Já passava das nove da noite e a garagem estava praticamente deserta e muito pouco iluminada. “Droga”, pensou. Viu seu carro solitário na outra ponta do estacionamento. Esperou um pouco, deu uma boa olhada em volta e disparou a correr. A sola de madeira do seu sapato ecoava pela garagem. Destravou a porta do carro a certa distância, abriu, jogou sua pasta no banco do passageiro e trancou as portas. Suspirou de alívio e de cansaço pela corrida. Seus níveis de adrenalina estavam quase baixando quando seu coração quase sai pela boca. Bateram no vidro do seu carro. “É agora”, ele pensou.
Mas não era. Gilmar, o zelador da garagem, “ouviu” a corrida de Johny e foi verificar se estava tudo bem. ‘”É que estou meio atrasado“, disse meio sem jeito. “Acho que estou é ficando paranóico”.

Mas por via das dúvidas, fez outro caminho. Dirigia com a respiração presa de tão tenso que estava. Olhava constantemente para os lados e não parou em nenhum sinal vermelho. Quando avistou, ao longe, o prédio em que morava, sentiu uma indizível felicidade. Como se aquele fosse o seu forte-apache onde estaria protegido.

Buzinou discretamente para o porteiro. Mais para chamar sua atenção do que propriamente para cumprimentá-lo. Outra garagem. Essa pelo menos estava iluminada. E a sua vaga ficava mais próxima ao elevador. Subiu. Destrancou a porta. Quando acendeu a luz notou um envelope no chão. Achou que fosse propaganda de alguma coisa, as pizzarias delivery faziam isso constantemente no prédio. Mas não era propaganda, nem de pizzaria, nem de algum político pedindo votos. Dentro do envelope havia uma carta, feita em computador e, pelos pequenos borrões, impressa em alguma antiga impressora jato de tinta. A carta dizia:

É, playbói vacilão, a casa vai cair prá você se você não ficar esperto. Nem sei porque tô te dando esse toque, porque otário que nem você tem que se fudê mesmo. Fica aí no seu mundinho, totalmente sem noção da real que é a vida da maioria das pessoa. Eu só tô perdendo meu tempo com você, seu mané, não é de pena, não... é que tem um lance que me faz o sangue subir mais que tudo na vida, que é trairagem. Vou te avisar de novo: se liga, seu bosta.

Johny sentou no seu sofá iraniano. Não tirou a gravata, nem os sapatos – sua primeira providência, sempre que chegava em casa – não buscou a garrafa do seu xará Johny Walker, nem ligou sua tv de plasma ou seu super aparelho de som. Ficou apenas sentado, imóvel, paralisado. Horas a fil pensando o que havia feito de errado para merecer aquilo.

continua >>

quinta-feira, setembro 11, 2008

As aventuras de Johny X - Cap III

_Telefone público em Diadema?? É claro... o cara não usaria um telefone que pudesse ser localizado - lamentava Johny, cada vez mais angustiado.

Ele realmente não sabia o que fazer. Estava totalmente desnorteado. Pensou em ligar para a polícia: "Mas vou dizer o quê? Que alguém me ligou avisando que vão me matar? E eles vão poder fazer o quê? Provavelmente dizer que foi trote. O que também é possível..."
Ficou pensando em quem dos seus conhecidos, teria mau-gosto suficiente para fazer uma "brincadeira" dessas. Ninguém lhe ocorria. Achava que mesmo os mais sacanas do departamento, que já haviam providenciado pegadinhas com drag queens e outros trotes, não fariam uma coisa dessas. Mesmo eles... E depois, havia uma autenticidade naquela voz, uma quase raiva, que ator nenhum conseguiria interpretar. Além disso, o telefonema ocorreu no começo da manhã e agora o dia já estava acabando... se fosse piada, o autor já teria aparecido para tirar uma da "cara pálida" dele.

Tentou organizar as idéias e pensar em alguém que pudesse ligar e pedir uma opinião. Luca, seu melhor amigo, havia viajado para a Patagônia. Pensou em ligar para a sua mãe, mas não quis preocupá-la. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se sozinho e não tão auto-suficiente como imaginava que fosse. Alguém estava de olho nele há algum tempo e ele não sabia quem e nem porquê, se é que essas coisas precisavam de motivo...

Sete e meia, oito. Oito e meia da noite e ele ainda estava no escritório. Até o pessoal da faxina já havia ido embora e ele ainda continuava lá, enrolando, com medo de voltar prá casa. Ficou pensando no que fazer. Decidiu mudar o caminho, para despistar. Depois, cogitou passar a noite em um hotel. "Pera lá, assim também já é demais."

Respirou fundo, tomou coragem e decidiu ir para casa mesmo. Pegou o elevador e desceu até a garagem onde estava seu carro. Já passava das nove da noite e a garagem estava praticamente deserta e muito pouco iluminada. "Droga", pensou. Viu seu carro solitário na outra ponta do estacionamento. Esperou um pouco, deu uma boa olhada em volta e disparou a correr. A sola de madeira do seu sapato ecoava pela garagem. Destravou a porta do carro a certa distância, abriu, jogou sua pasta no banco do passageiro e trancou as portas. Suspirou de alívio e de cansaço pela corrida. Seus níveis de adrenalina estavam quase baixando quando seu coração quase sai pela boca. Uma batida no vidro do seu carro. "É agora", ele pensou.
Mas não era. Gilmar, o zelador da garagem, "ouviu" a corrida de Johny e foi verificar se estava tudo bem. '"É que estou meio atrasado", disse meio sem jeito. "Acho é que estou é ficando paranóico...", pensou.

Por via das dúvidas, fez outro caminho. Dirigia com a respiração presa de tão tenso que estava. Olhava constantemente para os lados e não parou em nenhum sinal vermelho. Quando avistou, ao longe, o prédio em que morava, sentiu um grande alívio.

Buzinou discretamente para o porteiro. Mais para chamar sua atenção do que propriamente para cumprimentá-lo. Outra garagem. Essa pelo menos estava iluminada e a sua vaga ficava mais próxima ao elevador. Subiu. Destrancou a porta. Quando acendeu a luz, notou um envelope no chão. Achou que fosse propaganda de alguma coisa, as pizzarias delivery faziam isso constantemente no prédio. Mas não era propaganda, nem de pizzaria, nem de algum político pedindo votos. Dentro do envelope havia uma carta, feita em computador e, pelos pequenos borrões, impressa em alguma antiga impressora jato de tinta. A carta dizia:

É, playbói vacilão, a casa vai cair prá você, se não ficar esperto. Nem sei porque tô te dando esse toque, porque otário que nem você tem que se fudê mesmo. Fica aí no seu mundinho, totalmente sem-noção que armou a sua volta, que nem tem idéia de qual é a real da maioria das pessoa. Eu só tô perdendo meu tempo com você, seu mané, não é de pena, não... é que tem um lance que me faz o sangue subir mais que tudo na vida, que é trairagem. Vou te avisar de novo: se liga, seu bosta.

Johny sentou no seu sofá iraniano. Não tirou a gravata, nem os sapatos - sua primeira providência, sempre que chegava em casa - não buscou a garrafa do seu xará Johny Walker, nem ligou sua tv high definition ou seu super aparelho de som. Ficou apenas sentado, imóvel, paralisado, horas a fil, pensando o que havia feito de errado para merecer aquilo.

continua >>

quarta-feira, setembro 24, 2008

As aventuras de Johny X - Cap V

_Cê tá lôco, é? - disse Gilson, olhando nervosamente para os lados enquanto puxava Johny para dentro de casa. - Tá querendo me fuder, é?
_Eu? Tô querendo te fuder?? - berrou Johny - Tem dez dias que eu tô com medo da minha sombra e você vem me dizer que eu tô querendo te fuder?
_Vê se fala baixo, senão a ...
Nem terminou de completar a frase quando uma garotinha de vestido azul claro e maria-chiquinhas apareceu e já foi falando:
_Quem é, papai?
_Não é ninguém. Vai brincar lá dentro agora, tá bom? disse Gilson.
_ Ninguém? Como assim, ninguém? Eu tô vendo ele... - disse a garotinha franzindo as sobrancelhas.
_ Jéssica! Papai falou prá você ir prá dentro agora!
E lá se foi a pequena, toda contrariada.

_Você não tem noção... se alguém te vê aqui, eu tô ferrado. Você não podia ter feito isso cara, não podia.
_E você queria que eu fizesse o quê? Ficasse de braços cruzados esperando alguém me pegar, ou então ficasse esperando por algum outro recadinho bacana seu?
_Ah, por que eu fui me meter?... Agora vou arrumar prá minha cabeça também. Que vacilada...
_Olha aqui, eu já tô de saco cheio dessa história. Ou você me fala logo o que tá acontecendo ou eu não te dou mais sossego. Cê tá entendendo?
_ Caralho... - suspirou Gilson. Sabendo que não haveria jeito, começou a desenrolar o novelo:
_ O negócio é o seguinte: Um tempo atrás, vieram perguntar para um motoboy conhecido meu se ele sabia de alguém para fazer um "serviço", tá ligado? Então ele disse que não mexia com essas coisas e fim de papo. Só que daí ele ficou sabendo que esse mesmo cara foi procurar outro motoboy, que a gente sabe que tá metido com uma pá de rolo. Certamente esse aí conhece gente de sobra prá fazer esse trampo.
_ Tá bom, já entendi, o "serviço" sou eu, agora quem é que está contratando e por que?
_Não conheço. Mas ele também está sendo pago por alguém, ou você acha que o cara que quer te apagar vai sair por aí, perguntando quem faz o trampo?
_ Ok, mas por quê foram procurar logo por vocês?
_ Porque a gente já tem um certo acesso ao seu trampo, tá ligado? Fica bem mais fácil.
_Mas você não tem idéia de quem possa estar armando isso?
_Sei lá, cara. Você que tem que saber dos seus inimigos...
_ Inimigo? Eu não tenho inimigo, cassete. - se desesperava Johny.
_Ah, não? E esse aí, é o quê? Mano seu? De qualquer forma, se fosse prá dar um chute, eu diria que é alguém do seu meio... algum bacana aí do seu trampo, da sua família, sei lá. É alguém que tá perto. Como eu disse por telefone, o caso é de trairagem pro seu lado... alguém que tá se fazendo de muito amiguinho seu e tá só esperando para dar o bote.E foi só por isso que resolvi te dar esse toque. E já me arrependi...
_Maravilha... fico bem mais tranquilo... Porra, eu não mexo com ninguém, só fico na minha...
_Mesmo ficando na sua, parece que tá incomodando, né?
_Pelo jeito sim... Bom, até você que nem quer me matar, tá incomodado, né? Eu também te fiz alguma coisa?
_Fora esse jeito de playboy folgado, que se acha melhor do que os outros?
_E por isso alguém quer me matar?
_Sei lá, o que você andou fazendo para estarem querendo te apagar. Agora, uma coisa é certa, a vida não é só esse mundinho que você acha, não... Você é muito sem noção. Não é tudo nessa vida que se compra, tá ligado?
_É... tranquilidade, por exemplo.
_Você não viu nada, playboy...

>>continua

quinta-feira, março 04, 2004

As aventuras de Johny X - Cap V
_Cê tá lôco, é? - disse Gilson, olhando nervosamente para os lados enquanto puxava Johny para dentro de casa. - Tá querendo me fuder, é?
_Eu? Tô querendo te fuder?? - berrou Johny – Tem dez dias que eu tô com medo da minha sombra e você vem me dizer que eu tô querendo te fuder?
_Vê se fala baixo, senão a ...
Nem terminou de completar a frase quando uma garotinha de vestido azul claro e maria-chiquinhas apareceu e já foi falando:
_Quem é, papai?
_Não é ninguém. Vai brincar lá dentro agora, tá bom? disse Gilson.
_ Ninguém? Como assim, ninguém? Eu tô vendo ele... – disse a garotinha franzindo as sobrancelhas.
_ Jéssica! Papai falou prá você ir prá dentro agora!
E lá se foi a pequena contrariada.

_Você não tem noção... se alguém te vê aqui, eu tô ferrado. Você não podia ter feito isso cara, não podia.
_E você queria que eu fizesse o quê? Ficasse de braços cruzados esperando alguém me matar, ou então ficasse esperando por algum outro recadinho bacana seu?
_Ah, por que eu fui me meter? Agora vou arrumar prá minha cabeça também. Que vacilada...
_Olha aqui, eu já tô de saco cheio dessa estória. Ou você me fala logo o que tá acontecendo ou eu não te dou mais sossego. Cê tá entendendo?
_ Caralho... – suspirou Gilson. Sabendo que não haveria jeito, começou a desenrolar o novelo:
_ O negócio é o seguinte: Há um tempo atrás, vieram perguntar para um outro motoboy conhecido meu se ele conhecia alguém para fazer um “serviço”, tá ligado? Então ele disse que não mexia com essas coisas e fim de papo. Só que daí ele ficou sabendo que esse mesmo cara foi procurar outro motoboy, que a gente sabe que tá metido com uma pá de rolo. Certamente esse motoboy conhece gente de sobra prá fazer esse trampo.
_ Tá bom, já entendi, o “serviço” sou eu, agora quem é que está contratando?
_Não conheço. Mas ele também está sendo pago por alguém, ou você acha que o cara que quer te apagar vai sair por aí, perguntando quem faz o trampo?
_ Ok, mas por quê foram procurar logo por vocês?
_ Porque a gente já tem um certo acesso ao seu trampo, tá ligado? Fica bem mais fácil.
_Mas você não tem idéia de quem possa estar armando isso tudo?
_Sei lá, cara. Você que tem que saber dos seus inimigos...
_ Inimigo? Eu não tenho inimigo, cassete. – se desesperava Johny.
_Ah, não? E esse aí, é o quê? Mano seu? De qualquer forma, se fosse prá dar um chute, eu diria que é alguém do seu meio... do seu trampo, da sua família. É alguém que tá perto. Como eu disse por telefone, o caso é de trairagem pro seu lado... e acho que foi só por isso que resolvi te dar esse toque e já me arrependi...
_Maravilha... fico bem mais tranquilo... Porra, eu não mexo com ninguém, só fico na minha...
_Mesmo ficando na sua, parece que tá incomodando, né?
_Pelo jeito sim... Bom, até você que nem quer me matar, tá incomodado, né? Eu também te fiz alguma coisa?
_Cara, vou dizer a real prá você: cê tem um jeito de playboy folgado e metido que é duro de engolir.
_E por isso alguém quer me matar?
_Sei lá, o que você andou fazendo para estarem querendo te apagar. Mas uma coisa é certa, a vida não é só esse mundinho que você acha, não... Você é muito sem noção. Não é tudo nessa vida que se compra, tá ligado?
_É... tranquilidade, por exemplo.
_Você não viu nada, playboy...

>continua

quinta-feira, novembro 20, 2008

As aventuras de Johny X - Mini Flashback

Então... no caso de haver uma multidão silenciosa de leitores desta novelícula, ávidos por mais informações, venho a público informar que o Johny, continua vivo e bem (por enquanto...) e que espero, em breve, publicar outro capítulo. Como já faz tempo desde a última postagem, segue um mini flashback sobre o que rolou até agora:

O Johny, esse maurício sem noção, achava que não precisava de ninguém na vida e que seu mundinho estaria para sempre intocado. Ledo engano. De uma hora para outra, descobre que estão querendo matá-lo e ele nem sabe o porquê. Aparece então o Gílson, um motoboy, mal encarado e mal humorado, que a contra-gosto vai dar uma mão ao Johny. Ou não? Difícil saber em quem confiar...

De qualquer modo, o menos confiável, com certeza, é o autor. Gracias.

terça-feira, setembro 09, 2008

As aventuras de Johny X - Introdução

Apesar do R3x dizer (e com razão) que reciclar posts é fácil, me atrevo a cometer este pecado... (de novo).

Peço paciência de quem por ventura já tenha lido, mas vou republicar uma história em capítulos que estava escrevendo em 2004 e que acabei abandonando. A minha idéia é que agora, munido de gás novo, possa melhorá-la e concluí-la.

Engraçado, porque neste intervalo, surgiram o livro/filme: "Meu nome não é Johny"... O personagem da história a aseguir, ao contrário do primeiro, quer sim, ser chamado de Johny. É que ele é um tanto quanto metido... mas a vida costuma ensinar, uma hora ou outra, que não é assim que rolam as coisas...

Receber sua opinião, crítica, ou sugestão, seria ótimo.

As aventuras de Johny X - Cap I

Desde muito cedo João Xavier da Costa resolveu mudar de nome. "Além de sem-graça, esse nome parece de algum personagem da história nacional ou então de João Ninguém...".

Na adolescência, alguns amigos começaram a chamá-lo de Johny, apelido que logo abraçou e incorporou.

_Parabéns, João. Bem-vindo ao clube Harley-Davidson. Sua moto será entregue em dez dias.

Ele não se incomodou em desembolsar mais de setenta mil reais pela moto. Ouvir seu nome "oficial" incomodava muito mais...

Na corretora de valores onde trabalhava, poucos sabiam seu verdadeiro nome. "Nome é uma coisa muito importante para que a gente delegue isto para outras pessoas, mesmo que sejam seus pais...". E ia além: "Deveria haver uma lei que determinasse que as pessoas a partir de uma certa idade, poderiam adotar um nome diferente daquele de batismo." A vaidade encontrava terreno amplo e fértil naquele paulistano de 35 anos, bem sucedido profissionalmente, solteiro ("liberdade é tudo") e regido pelo signo de Sagitário ("liberdade é tudo").

Morava em um apartamento modernoso - na verdade, um Loft - na região de Perdizes - perto das baladas da Vila Madalena e perto do seu time, o Palestra Itália. Naquele apê espaçoso para só uma pessoa, artigos caros eram fartamente encontrados: eletro-eletrônicos de última geração assinados pela dinamarquesa Bang & Olufsen, quadros de pintores da moda, sofás importados da Bélgica, tapetes iranianos. Qualquer um que entrasse naquele apartamento, saberia que ali vive alguém sofisticado. E que gostava de deixar isso bem claro.

Naquela segunda-feira, quando saiu de casa, gel no cabelo, gravata Hermè, rumo ao trabalho na Av. Faria Lima, pensou: "Esta é a última semana de perder tempo no trânsito. Mais alguns dias, eu pego a Harley e tudo vai ser diferente." E já contabilizava de que maneira aproveitaria o tempo extra.

Mas na vida, as coisas nem sempre caminham como planejamos. Muitas vezes, determinadas coisas simplesmente acontecem... E mudam tudo.

continua->

quinta-feira, janeiro 29, 2004

As aventuras de Johny X - Cap I
Desde muito cedo João Xavier resolveu mudar de nome. “Além de sem-graça, esse nome parece de algum personagem da história nacional”. Alguns amigos já o chamavam de Johny e ele achava que tinha mais a ver.

_Parabéns, João. Bem-vindo ao clube Harley Davidson. Sua moto será entregue em dez dias.

Ele não se incomodou em desembolsar mais de sessenta mil reais pela moto. Ouvir seu próprio nome o incomodava muito mais.
Na corretora de valores onde trabalhava, poucos sabiam seu verdadeiro nome. “Nome é uma coisa muito importante para que outras pessoas escolham pela gente, mesmo se essas pessoas forem nossos pais” pensava com seus botões. E ia além: “Deveria haver uma lei que determinasse que as pessoas a partir de uma certa idade poderiam adotar um outro nome diferente do nome de batismo.” A vaidade encontrava terreno amplo e fértil naquele paulistano de 35 anos, bem sucedido profissionalmente, solteiro (“liberdade é tudo”) e regido pelo signo de Sagitário (“liberdade é tudo”).

Morava em um apartamento modernoso - na verdade, um Loft - na região de Perdizes - perto das baladas da Vila Madalena e perto do Palmeiras. Naquele apê espaçoso para só uma pessoa, artigos caros eram fartamente encontrados: eletro-eletrônicos de última geração assinados pela dinamarquesa Bang & Olufsen, quadros de pintores renomados, sofás importados da Bélgica, tapetes iranianos. Quem entrasse no apartamento saberia que ali vive alguém sofisticado. E que gostava de deixar isso bem claro.

Naquela segunda-feira quando saiu de casa, gel no cabelo, rumo ao trabalho na Faria Lima, pensou: “Esta é a última semana de congestionamento. Mais alguns dias, eu pego a Harley e tudo vai ser diferente.” E já contabilizava o tempo que ganharia com o novo transporte e de que maneira o aproveitaria.

Mas na vida, as coisas nem sempre caminham como planejamos. Muitas vezes, determinadas coisas simplesmente acontecem... E mudam tudo.